quinta-feira, 4 de setembro de 2008

broken hearted

O meu coração está feito em pedacinhos, tal como o espelho que se encontra partido no chão. Não há ninguém com quem possa partilhar a dor e as lágrimas. Ninguém disposto a ouvir-me ou compreender-me. Ninguém disposto a dar valor a este coração que sabe o que é sentir.


Há momentos das nossas vidas que queremos simplesmente esquecer. Outros, ficam para sempre connosco como que marcados a fogo na pele. Uma gargalhada, um elogio, uma palavra. Gravadas para todo o sempre na minha memória, por mais que tente esquecer. Todas relativas à mesma pessoa.

Meu deus, como sou ingénua. Talvez se eu fosse diferente, mais inteligente ou mais bela, o destino se tivesse alterado. Mas ele ainda não quer saber de mim e isso faz-me sofrer. A verdade é que já o adoro há demasiado tempo e estupidamente muito para esquecer. Pensava que a virtualidade das relações pudesse por um fim a isto, mas não.

Agora, não sou capaz de o olhar de frente, nem olhos nos olhos. Como eu gostava de me perder na imensidão daqueles olhos azuis… Mas não passo de uma idiota estupidamente apaixonada. O amor, agora percebo, foi feito apenas para os que conseguem arcar com o seu peso. Não para mim.

Acho que sou demasiado insegura para que alguém goste de mim e corresponda ao meu coração, à metade que há muito se perdeu.

Mas esse alguém está ainda longe de chegar. Não quero sofrer mais por ele, mesmo sabendo que a metade do meu coração que falta está na sua posse.

Quero muito aquilo que não posso ter. E o orgulho impede ambos de simplesmente falar...

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

quarto de espelhos


“Parecia um filme a preto e branco. Ao fundo, no cimo do monte, avistava-se uma grande mansão vitoriana. Uma cena fantasmagórica. Há muito que não se via uma única alma rondando a enorme casa, até hoje.
Uma vela acesa no segundo andar. Avistam-se sombras, não, é apenas uma pessoa. Como é que nunca se deu por ela? Parece que tem estado ali desde sempre…”


Dentro da casa reina a escuridão. Acendi uma vela, no quarto dos espelhos do segundo andar, mas tenho medo que alguém me veja. Este quarto está forrado a espelhos. Vejo o meu reflexo, sombras, a minha alma, o que me destrói e o que me constrói.

Vou-me arrastando a passos largos pelo quarto, sentindo-me só pela primeira vez desde que aqui estou. Fecho os olhos e penso em toda a minha vida, tento recordar-me dos momentos mais felizes.

E, ainda com os olhos fechados, sinto-me a partir um dos espelhos. Desfez-se em cacos. Apanho um deles e é lá que vejo o meu reflexo agora. Mas não é isto que sou. Pensando bem, não me sinto só. Não sinto rigorosamente nada. Estou oca. Preciso desesperadamente de sentir algo.

Encosto o pedaço de espelho partido ao pescoço. Não, não me parece que seja capaz. Encosto-o ao braço e abro os olhos. Olho para o chão, está pintado de vermelho.

E é então que me começo a sentir viva pela primeira vez em muito tempo, viva como o vermelho do sangue quente que me escorre pelas mãos.


Inês Retorta 24.Mar.2008